No dia 25 de setembro de 2026, o governo publicou uma medida provisória proibindo as bets no Brasil. Com ela, apostas esportivas, cassinos online e o famoso “tigrinho” passaram a ser ilegais em todo o país.
Uma lei pode tirar um aplicativo do ar. Mas existe uma coisa que nenhuma lei consegue proibir: a vontade de pular o caminho e, junto com ela, a ideia de que só a chegada importa.
Neste texto, quero ir além do vídeo em que conto a história de dois homens com o mesmo milhão na conta (ele está mais abaixo): por que o atalho fascina tanto e o que as Escrituras já sabiam sobre o ser humano que só se forma atravessando.
O que muda com a proibição das bets
A Medida Provisória nº 1.394/2026 torna ilegais a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas de quota fixa, como as apostas esportivas, e de jogos de azar online. A regra vale inclusive para empresas sediadas no exterior que ofereçam serviços a pessoas no Brasil.
- Os apostadores tiveram até 5 de outubro para sacar os saldos.
- A partir de 6 de outubro, sites e aplicativos de apostas precisam sair do ar, mantendo apenas o necessário para devolver os valores.
- Por ser uma medida provisória, ela vale desde a publicação, mas precisa ser aprovada pelo Congresso em até 60 dias, prorrogáveis por mais 60.
Os detalhes jurídicos ainda podem mudar. A pergunta que o assunto deixa continua de pé: por que tanta gente foi atrás dessa promessa?
A porta que a bet vendia
Imagine duas portas. Atrás da primeira, dez anos de trabalho até chegar a dez milhões de reais. Atrás da segunda, os mesmos dez milhões apertando um botão.
A bet vendia a segunda porta: resultado sem processo. E vendia bem, porque a recompensa vinha de forma irregular. Você perde, passa perto, ganha uma vez. A psicologia chama esse padrão de reforço intermitente e, desde os experimentos de B. F. Skinner, sabe que ele torna um comportamento muito mais difícil de largar. A pessoa coloca cinquenta reais, tira quatrocentos, e a mente aprende: “a próxima pode mudar tudo”.
Mas o problema não começa no aplicativo. Ele começa antes, na forma como aprendemos a olhar para a vida.
Por que a chegada vende e o processo não
Repare no que aparece num anúncio ou num feed de rede social: a chave do carro, a viagem, o casamento, o corpo pronto. Os anos anteriores quase nunca aparecem. A chegada cabe numa foto e prende a atenção; uma terça-feira comum de trabalho, não.
Em 1928, Edward Bernays, sobrinho de Freud e considerado o pai das relações públicas, abriu o livro Propaganda afirmando que a manipulação consciente dos hábitos e das opiniões das massas era um elemento importante da sociedade democrática. Desde então, a comunicação aprendeu a vender a imagem do resultado.
A bet apenas levou essa lógica ao extremo, porque nem fingia que havia um caminho. Mas apontar para quem vende a chegada resolve pouco. A pergunta que importa é quanto nós mesmos passamos a desprezar o caminho.
O ferro só vira aço no fogo
O ferro bruto é quebradiço. Para virar aço, ele precisa ir ao fogo, apanhar do martelo, ir à água fria e voltar ao fogo, muitas vezes. Nenhuma dessas etapas é bonita, mas é nelas que o metal ganha a resistência que vai ter pelo resto da vida.

Conosco acontece algo parecido. Imagine dois homens, cada um com exatamente um milhão de reais na conta. O primeiro ganhou numa aposta. O segundo passou dez anos construindo uma empresa até chegar ao primeiro milhão. No aplicativo do banco, o número é igual.
Durante aqueles dez anos, o segundo aprendeu a negociar, errou, corrigiu e continuou sem garantia de que daria certo. Se amanhã os dois perderem tudo, nada garante que o empresário vai recuperar o dinheiro, mas só ele conhece o caminho de volta. Ele carrega uma coisa que não aparece no saldo: capacidade. E capacidade não cai na conta.
Eu conto essa história, com mais detalhes, neste vídeo:
O que as Escrituras sabiam sobre o caminho
As narrativas bíblicas raramente tratam o caminho como um pedágio. Pelo contrário, muitas de suas histórias mais importantes acontecem no meio da travessia, e não na chegada.
O deserto
O povo de Israel saiu do Egito e levou quarenta anos para atravessar o deserto. E o próprio texto lembra que a distância do Horebe até Cades-Barnéia era de “onze jornadas”, ou seja, onze dias de viagem (Deuteronômio 1:2).
A Bíblia dá duas razões para essa demora. A primeira está em Números 14:33–34: depois que os espias voltaram de Canaã e o povo se recusou a entrar na terra, aquela geração ficou quarenta anos no deserto, um ano para cada dia de espionagem. A segunda está em Deuteronômio 8:2, que olha para esses mesmos anos como formação:
“E te lembrarás de todo o caminho, pelo qual o Senhor teu Deus te guiou no deserto estes quarenta anos, para te humilhar, e te tentar, para saber o que estava no teu coração, se guardarias os seus mandamentos, ou não.”
O deserto foi consequência e também escola. Um povo que tinha sido escravo precisava aprender a viver livre antes de entrar na terra.
Jacó
Jacó recebe o nome Israel depois de lutar a noite inteira junto ao vau do Jaboque. O texto faz questão de dizer que ele “ficou só” (Gênesis 32:24) e que, ao amanhecer, saiu mancando (Gênesis 32:31). O novo nome não chega como prêmio no fim da viagem: nasce no meio dela, de uma luta que deixa marca.
José
Antes do palácio, José passou cerca de treze anos entre o poço, a escravidão e a prisão. Ele tinha 17 anos quando foi vendido pelos irmãos (Gênesis 37:2) e 30 quando se apresentou ao faraó (Gênesis 41:46). Quem assumiu o governo do Egito já tinha sido formado por esses anos.
A prova que levanta
O Midrash acrescenta um detalhe do hebraico. A palavra para “prova” é nissayon (נִסָּיוֹן). Em Bereshit Rabbah 55:1, os sábios a aproximam de nes, “estandarte”, a bandeira erguida no alto de um mastro. Nessa leitura, Deus prova o justo para erguê-lo, como se levanta um estandarte. A prova é o que levanta, e não o que derruba.
Lech Lechá: o caminho também é para dentro
Quando Deus chama Abrão, que mais tarde se chamaria Abraão, a ordem é curta: “Sai-te da tua terra” (Gênesis 12:1). O hebraico, porém, diz algo mais estranho: lech lechá (לֶךְ־לְךָ), literalmente “vai para ti”.
Rashi, o grande comentarista medieval, lê a expressão como “para o teu proveito e para o teu bem” (Rashi sobre Gênesis 12:1). E Abrão não sabia para onde estava indo: Deus fala apenas da “terra que eu te mostrarei”. A história começa pelo caminho, e não pelo destino, e o caminho existe também para o bem de quem caminha.
Por que a chegada nunca basta

Mesmo quando a chegada vem, ela dura pouco. Você passa anos olhando um carro e finalmente compra. Na primeira semana, estaciona longe de todo mundo. Seis meses depois, há uma garrafa vazia rolando embaixo do banco. O carro continua o mesmo; ele só virou normal.
A psicologia chama isso de adaptação hedônica: com o tempo, nos acostumamos até com conquistas que pareciam extraordinárias. Num estudo clássico de 1978, Brickman, Coates e Janoff-Bulman observaram que ganhadores de loteria não estavam significativamente mais felizes que outras pessoas pouco tempo depois do prêmio.
Esse estudo, porém, era pequeno, com 22 ganhadores. Pesquisas maiores, como uma feita com ganhadores de loteria na Suécia e publicada em 2020, encontraram um aumento duradouro na satisfação com a vida, embora não no humor do dia a dia. Em outras palavras, o dinheiro pode melhorar a avaliação que fazemos da vida, mas não resolve a inquietação de cada dia.

Isso não é um defeito humano. Uma árvore não chega a uma altura e declara “pronto, terminei”: ela cresce, dá fruto, perde folhas e atravessa novos ciclos. O perigo está em acreditar que existe uma chegada final, depois da qual nunca mais vai faltar nada, e sacrificar o presente inteiro por ela.
A pergunta certa diante de um atalho
Nada disso é romantizar o sofrimento. Não existe medalha espiritual para quem sofreu mais do que precisava. Se existe um caminho mais inteligente, pegue. Se existe uma ferramenta que economiza trabalho inútil, use.
Diante de um atalho, a pergunta é outra: o que, exatamente, eu estou pulando?
Às vezes você está pulando burocracia, e isso é ótimo. Às vezes está pulando desperdício, melhor ainda. Mas às vezes está pulando justamente a forja: a parte que ia te transformar na pessoa capaz de viver aquilo que você quer conquistar. Vale fazer essa pergunta da próxima vez que alguém prometer resultado sem processo, seja no dinheiro, no corpo ou até na espiritualidade.
O caminho não é o intervalo antes da sua vida começar. O caminho é a sua vida.
Se a aposta já virou um problema
Se você ou alguém próximo não consegue parar de apostar, não precisa enfrentar isso sozinho. Os Jogadores Anônimos têm reuniões gratuitas, presenciais e online, em vários estados. Em momentos de angústia, o CVV atende 24 horas, de graça, pelo telefone 188.
Perguntas frequentes
Ver as perguntas
As bets foram proibidas no Brasil?
Sim. A Medida Provisória nº 1.394/2026, publicada em 25 de setembro de 2026, proibiu a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas de quota fixa e de jogos de azar online. Como é uma medida provisória, ela ainda precisa ser aprovada pelo Congresso para continuar valendo.
O jogo do tigrinho também foi proibido?
Sim. A proibição alcança os jogos de azar online, incluindo o “tigrinho” e os cassinos virtuais, e não apenas as apostas esportivas.
O que é reforço intermitente?
É quando uma recompensa aparece de forma irregular, sem que a pessoa saiba quando virá a próxima. Esse padrão torna um comportamento mais persistente do que uma recompensa constante, e é um dos mecanismos que explicam por que é tão difícil parar de apostar.
O que é adaptação hedônica?
É a tendência de nos acostumarmos com mudanças positivas. Com o tempo, uma conquista que parecia extraordinária passa a fazer parte da vida normal e deixa de produzir a mesma emoção.
Por que o povo de Israel ficou 40 anos no deserto?
Segundo Números 14:33–34, foi consequência da incredulidade depois do relato dos espias: um ano para cada dia de espionagem. Deuteronômio 8:2 olha para esses mesmos anos como formação, um tempo para provar o povo e revelar o que havia em seu coração.
Quem nunca apostou pode viver na lógica da aposta?
Pode. Basta viver esperando uma chegada que resolva tudo, como um valor na conta, uma pessoa ou uma conquista, e tratar todo o caminho até lá como tempo perdido.
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Fontes consultadas
Ver a lista completa de fontes
- Poder360: Lula proíbe bets no Brasil (publicação da MP nº 1.394/2026).
- Serasa: proibição das bets, o que muda (prazos de saque e devolução).
- Congresso em Foco: da liberação à proibição, a linha do tempo das bets no Brasil.
- Bíblia, Almeida Corrigida Fiel: Números 14:33–34; Deuteronômio 1:2 e 8:2; Gênesis 12:1, 32:24–31, 37:2 e 41:46.
- Bereshit Rabbah 55:1 e Rashi sobre Gênesis 12:1 (Sefaria).
- Bernays, Edward. Propaganda (1928).
- Ferster, C. B. e Skinner, B. F. Schedules of Reinforcement (1957).
- Brickman, Coates e Janoff-Bulman: Lottery winners and accident victims: is happiness relative? (1978), Journal of Personality and Social Psychology.
- Lindqvist, Östling e Cesarini: Long-run effects of lottery wealth on psychological well-being (2020), Review of Economic Studies.
- Jogadores Anônimos do Brasil e CVV (188).




