O Livro de Enoque descreve anjos que descem à Terra, gigantes nascidos da união desses anjos com mulheres humanas, viagens pelos céus e visões sobre o julgamento divino. É um texto antigo, conhecido por comunidades judaicas antes do nascimento do cristianismo, e uma de suas passagens é citada no Novo Testamento.
Apesar disso, o Livro de Enoque não aparece nas Bíblias católicas, protestantes ou na maioria das Bíblias ortodoxas. Ele faz parte, porém, da Bíblia da Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo. Para entender essa diferença, é preciso conhecer a história do livro e a maneira como judeus e cristãos reconheceram seus textos sagrados.
O que é o Livro de Enoque?
O Livro de Enoque, chamado pelos pesquisadores de 1 Enoque, é uma coleção de escritos judaicos produzidos em diferentes períodos, aproximadamente entre o século III a.C. e o início da era cristã. Seu nome vem de Enoque, o patriarca de Gênesis 5 que “andou com Deus” e foi tomado por Ele.
A obra reúne cinco grandes partes: o Livro dos Vigilantes, o Livro das Parábolas, o Livro Astronômico, o Livro dos Sonhos e a Epístola de Enoque. Cada uma tem características próprias, e elas não foram escritas pelo mesmo autor nem na mesma época.
A narrativa mais conhecida está no Livro dos Vigilantes (capítulos 6 a 11). Ali, anjos chamados Vigilantes, liderados por Shemihazah, descem à Terra, unem-se a mulheres humanas e geram filhos gigantes. Assim, o livro amplia uma passagem breve de Gênesis 6:1–4, que menciona os “filhos de Deus”, as “filhas dos homens” e os Nephilim. As outras partes, por sua vez, tratam do movimento dos astros, de calendários, de sonhos simbólicos sobre a história de Israel e do julgamento final.
O Livro de Enoque era conhecido antes de Jesus?
Sim. Uma das evidências mais importantes está entre os Manuscritos do Mar Morto, descobertos a partir de 1947 nas cavernas próximas a Qumran. Entre eles, havia fragmentos em aramaico de várias partes de 1 Enoque.

Esses fragmentos mostram que a literatura de Enoque circulava entre judeus séculos antes das cópias etíopes que preservaram a obra completa. Além disso, ajudam a entender como o livro se formou. O Livro das Parábolas, por exemplo, não aparece entre os fragmentos de Qumran, e sua datação continua sendo discutida.
A presença do livro em Qumran mostra que ele era conhecido e valorizado naquele ambiente. Ainda assim, estar numa biblioteca antiga não prova que um texto tivesse o mesmo peso religioso de todos os outros ali guardados.
Por que não entrou na Bíblia judaica?
A Bíblia hebraica, chamada no judaísmo de Tanakh, reúne a Torá, os Profetas e os Escritos. O Livro de Enoque, porém, não faz parte dessa coleção.
Durante o período do Segundo Templo, os judeus liam e produziam muitas obras religiosas. Algumas se tornaram Escritura para as gerações seguintes; outras continuaram circulando como narrativas, comentários e ensinamentos. O Livro de Enoque pertence a esse segundo grupo, ao menos no judaísmo rabínico, que é a forma de judaísmo que prevaleceu depois da destruição do Templo.
Muitos leitores já ouviram falar do “Concílio de Jâmnia” (ou Yavne), em que rabinos teriam fechado o cânon judaico por volta do ano 90. Essa teoria, proposta no século XIX, hoje é rejeitada pela maioria dos estudiosos. Ou seja, não há registro de uma reunião em que alguém tenha decidido excluir Enoque.
Há, porém, uma exceção importante. Os judeus etíopes, conhecidos como Beta Israel, também incluem o Livro de Enoque entre suas escrituras. Portanto, a ausência do livro vale para o judaísmo rabínico, e não para todas as tradições judaicas.
O Livro de Enoque foi escrito por Enoque?
Dentro do livro, Enoque aparece como quem recebe e transmite as revelações. Historicamente, porém, os textos são muito posteriores à época em que a Bíblia situa o patriarca.
Esse tipo de atribuição se chama pseudepigrafia. Na literatura religiosa antiga, era comum apresentar um ensinamento sob o nome de uma figura respeitada do passado, para ligá-lo à autoridade dela. Além disso, as diferenças de estilo e de assunto entre as partes de 1 Enoque mostram que ele se formou ao longo de vários períodos.
A questão da autoria, aliás, pesou na forma como alguns cristãos avaliaram a obra. Agostinho, por exemplo, admitia que Enoque tivesse escrito algo inspirado, já que a Carta de Judas o cita, mas duvidava que os textos que circulavam em seu nome fossem realmente dele (A Cidade de Deus, XV, 23).
O Novo Testamento cita o Livro de Enoque?
Sim. A Carta de Judas, nos versículos 14 e 15, traz uma profecia atribuída a “Enoque, o sétimo depois de Adão”. A passagem corresponde de forma muito próxima a 1 Enoque 1:9, que anuncia a vinda do Senhor com seus santos para julgar.
Além dessa citação direta, outras passagens ecoam a história dos Vigilantes. Judas 6 fala dos “anjos que não guardaram o seu principado” e foram reservados em prisões até o juízo. Da mesma forma, 2 Pedro 2:4 menciona os anjos que pecaram e foram lançados em lugar de trevas. Portanto, a tradição de Enoque fazia parte do ambiente em que os primeiros escritos cristãos surgiram.
Isso levanta uma pergunta natural: se Judas cita Enoque, o livro inteiro não deveria estar na Bíblia? A resposta dos cristãos antigos variou. Alguns deram grande autoridade ao livro; outros entenderam que usar uma passagem não significava reconhecer a obra inteira como Escritura.
Os primeiros cristãos liam o Livro de Enoque?
Sim, e com opiniões diferentes sobre ele.
- Epístola de Barnabé (início do século II): esse texto cristão antigo introduz uma passagem de Enoque com a expressão “diz a Escritura”. É um dos sinais mais antigos de que alguns cristãos o tratavam como livro sagrado.
- Tertuliano (séculos II e III): defendeu a autoridade do livro. Diante da objeção de que um texto anterior ao Dilúvio não poderia ter sobrevivido, sugeriu que Noé, bisneto de Enoque, o teria preservado (Sobre o adorno das mulheres, I, 3).
- Orígenes (séculos II e III): conhecia os escritos de Enoque, mas reconhecia que eles não eram aceitos como Escritura divina pelas igrejas em geral (Contra Celso, V, 54).
Assim, desde os primeiros séculos, a recepção do livro foi dividida. À medida que as igrejas de língua grega e latina organizaram suas coleções, o Livro de Enoque ficou de fora delas.
Foi a Igreja Católica que retirou o Livro de Enoque da Bíblia?
Não. Para retirar um livro de uma lista, ele precisaria ter estado nela, e o Livro de Enoque nunca esteve nas listas que se tornaram oficiais no cristianismo de língua grega e latina.
As primeiras listas cristãs do cânon, como a carta de Atanásio de Alexandria, de 367, e as dos concílios de Hipona, em 393, e de Cartago, em 397, não incluem Enoque. Mais tarde, em 1546, o Concílio de Trento definiu o cânon católico a partir da Vulgata, a tradução latina da Bíblia, e o Livro de Enoque nunca fez parte da Vulgata.
O mesmo vale para os protestantes. Na Reforma, eles deixaram de fora os livros deuterocanônicos, como Tobias, Judite e os Macabeus, e Enoque não estava entre eles. Por isso, a diferença entre a Bíblia católica e a protestante não tem relação com o Livro de Enoque.
Por que o Livro de Enoque está na Bíblia etíope?
A Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo seguiu um caminho próprio. Ali, o Livro de Enoque continuou sendo copiado e lido como Escritura, em ge’ez, a língua clássica etíope. Foi justamente essa tradição que preservou o texto completo até a era moderna.

A Bíblia etíope tem uma composição diferente das Bíblias mais conhecidas no Brasil. Além de Enoque, inclui outros escritos antigos, como o Livro dos Jubileus. A Igreja Ortodoxa Eritreia, que vem da mesma tradição, também o preserva. Portanto, a resposta à pergunta “Enoque está na Bíblia?” depende de qual Bíblia se está considerando.
Como o Livro de Enoque chegou até nós?
Durante séculos, os estudiosos europeus conheceram o Livro de Enoque apenas por citações e trechos preservados em outras obras. Em 1773, o viajante escocês James Bruce voltou da Etiópia com manuscritos que continham o texto completo. A partir deles, Richard Laurence publicou em 1821 a primeira tradução para o inglês.
Depois disso, vieram outras descobertas. No fim do século XIX, um manuscrito grego com boa parte do Livro dos Vigilantes foi encontrado em Akhmim, no Egito. Já no século XX, os fragmentos aramaicos de Qumran mostraram que partes importantes da obra existiam muito antes das cópias etíopes. Hoje, o estudo de 1 Enoque combina manuscritos em várias línguas.
O Livro de Enoque é proibido?
Não. O Livro de Enoque pode ser encontrado em traduções, edições acadêmicas e bibliotecas digitais, e é estudado por pesquisadores da Bíblia, do judaísmo antigo e das origens do cristianismo. Ficar fora de um cânon significa apenas que uma tradição não o lê como Escritura; isso não impede a leitura dele como documento religioso e histórico.
Além disso, o livro ajuda a entender ideias que circulavam no judaísmo antigo sobre os anjos, a origem do mal, o julgamento e o futuro.
Em resumo
O Livro de Enoque não foi retirado da Bíblia. Ele foi conhecido e valorizado por judeus e cristãos antigos, mas não entrou na Bíblia do judaísmo rabínico nem nas listas que se tornaram oficiais nas igrejas de língua grega e latina. Na Etiópia, ao contrário, continuou sendo lido como Escritura até hoje.
Perguntas frequentes
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O Livro de Enoque foi retirado da Bíblia?
Não. Ele nunca fez parte das listas que se tornaram oficiais entre católicos, protestantes e a maioria das igrejas ortodoxas. Continua presente, porém, na Bíblia da Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo.
O Livro de Enoque é citado na Bíblia?
Sim. Judas 14–15 cita uma profecia que corresponde a 1 Enoque 1:9.
Quem escreveu o Livro de Enoque?
A obra é atribuída ao patriarca Enoque, mas os pesquisadores a consideram uma coleção de textos de diferentes autores, escritos aproximadamente entre o século III a.C. e o início da era cristã.
O Livro de Enoque fala dos anjos caídos?
Sim. O Livro dos Vigilantes, primeira parte de 1 Enoque, narra a descida de anjos à Terra, sua união com mulheres humanas e os conhecimentos que eles ensinam e que corrompem a humanidade.
Qual igreja tem o Livro de Enoque na Bíblia?
A Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo e a Igreja Ortodoxa Eritreia. Os judeus etíopes (Beta Israel) também o incluem entre suas escrituras.
Vale a pena ler o Livro de Enoque?
Sim, para quem quer conhecer as tradições judaicas antigas e o contexto em que surgiram ideias presentes no cristianismo primitivo. O ideal é usar uma edição que explique as partes do livro e a época em que cada uma foi escrita.
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Fontes consultadas
Ver a lista completa de fontes
- Livro de Gênesis, capítulo 5 (Sefaria)
- Carta de Judas (Bíblia Online)
- 1 Enoque, tradução de R. H. Charles (1917) (Sacred Texts). Tradução anterior à descoberta de Qumran.
- Leslie Baynes, Enoch and Jubilees in the Canon of the Ethiopian Orthodox Church (Brill)
- Bruk Ayele Asale, estudo sobre 1 Enoque, Judas e o cânon da Igreja Ortodoxa Etíope
- Catholic Encyclopedia, “The Book of Enoch”
- Agostinho, A Cidade de Deus, livro XV, capítulo 23
- Tertuliano, Sobre o adorno das mulheres, livro I, capítulo 3
- Orígenes, Contra Celso, livro V, capítulo 54
- Epístola de Barnabé, capítulo 16




