Poucos textos bíblicos ficaram tão ligados à ideia de proteção quanto o Salmo 91. Ele é lido em momentos de medo, doença, perigo e incerteza. Está aberto em Bíblias dentro de casa, aparece em orações e acompanha pessoas que sabem alguns de seus versos de memória.
Essa associação não surgiu por acaso. O próprio salmo fala de armadilhas, doenças, perigos da noite, flechas durante o dia, inimigos e animais ameaçadores. Em meio a essas imagens, uma ideia se repete: Deus como abrigo para quem confia nele.
Uma leitura atenta, porém, levanta algumas perguntas. Quem escreveu o Salmo 91? O que significa “habitar no esconderijo do Altíssimo”? Por que aparecem asas, escudo, anjos, leões e serpentes? E o salmo promete mesmo que nada de mal acontecerá? Antes de respondê-las, vale ler o texto inteiro.
Salmo 91 completo
Texto: João Ferreira de Almeida, revisão de 1911, com ortografia atualizada. Texto em domínio público. Bíblia Almeida
- Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará.
- Direi do Senhor: Ele é o meu Deus, o meu refúgio, a minha fortaleza, e nele confiarei.
- Porque ele te livrará do laço do passarinheiro, e da peste perniciosa.
- Ele te cobrirá com as suas penas, e debaixo das suas asas te confiarás; a sua verdade será o teu escudo e broquel.
- Não terás medo do terror de noite nem da seta que voa de dia,
- nem da peste que anda na escuridão, nem da mortandade que assola ao meio-dia.
- Mil cairão ao teu lado, e dez mil à tua direita, mas não chegará a ti.
- Somente com os teus olhos contemplarás, e verás a recompensa dos ímpios.
- Porque tu, ó Senhor, és o meu refúgio. No Altíssimo fizeste a tua habitação.
- Nenhum mal te sucederá, nem praga alguma chegará à tua tenda.
- Porque aos seus anjos dará ordem a teu respeito, para te guardarem em todos os teus caminhos.
- Eles te sustentarão nas suas mãos, para que não tropeces com o teu pé em pedra.
- Pisarás o leão e a cobra; calcarás aos pés o filho do leão e a serpente.
- Porquanto tão encarecidamente me amou, também eu o livrarei; pô-lo-ei em retiro alto, porque conheceu o meu nome.
- Ele me invocará, e eu lhe responderei; estarei com ele na angústia; dela o retirarei, e o glorificarei.
- Saciá-lo-ei com longura de dias, e lhe mostrarei a minha salvação.
Qual é o significado do Salmo 91?
O Salmo 91 é um salmo de confiança e proteção. Sua mensagem central é que, diante de perigos que nem sempre podemos controlar, o ser humano pode encontrar segurança em Deus.
O texto hebraico começa com יֹשֵׁב בְּסֵתֶר עֶלְיוֹן (yoshev beseter Elyon). A expressão descreve alguém que habita no abrigo, ou lugar protegido, do Altíssimo. Em seguida, aparece outra imagem: permanecer “à sombra” de Shaddai, um dos nomes de Deus no texto bíblico.
Essas imagens dos primeiros versos (abrigo, sombra, refúgio e fortaleza) orientam a leitura do restante do salmo. Por isso, o ponto de partida não é a ausência de perigo, mas o lugar onde o ser humano encontra refúgio quando ele existe.
Quem escreveu o Salmo 91?
O Salmo 91 não informa o nome de seu autor no texto hebraico. Diferentemente do Salmo 90, que começa com uma indicação a Moisés, o 91 não traz nenhuma identificação equivalente.
Mesmo assim, surgiram tradições sobre sua autoria. A mais importante, na tradição judaica, associa o salmo a Moisés. Rashi, comentarista judeu medieval, afirma no comentário ao Salmo 90 que os onze salmos daquele ponto até o início do Salmo 101 teriam sido recitados por Moisés. Além disso, no comentário ao próprio Salmo 91, ele volta a mencionar Moisés.
Isso explica por que é comum ler que “Moisés escreveu o Salmo 91”. No entanto, é preciso separar as coisas: a tradição atribui o salmo a Moisés, mas o próprio texto não identifica seu autor.
A pesquisa moderna também discute a composição do salmo e sua posição no Livro dos Salmos. Phil J. Botha, por exemplo, analisa relações literárias entre o Salmo 91, Provérbios e Jó, e destaca sua posição no conjunto formado pelos Salmos 90, 91 e 92. De todo modo, não há base para apresentar uma autoria histórica comprovada.
Salmo 91 explicado: o que cada parte quer dizer?
O salmo tem 16 versículos. Em vez de tratar cada frase como uma promessa isolada, vale observar como as imagens se desenvolvem ao longo do texto.
Versículos 1 e 2: Deus como abrigo
O salmo começa com quatro imagens próximas: abrigo, sombra, refúgio e fortaleza. Ainda não há pedido; o texto abre com uma declaração de confiança.
Rashi interpreta o primeiro versículo como estar sob as “asas da Shechiná”, termo da tradição judaica para a presença divina. O próprio salmo, aliás, desenvolve a imagem das asas no versículo 4. Assim, a proteção aparece primeiro como proximidade e confiança em Deus.
Versículos 3 e 4: armadilha, doença, asas e escudo
Os versículos 3 e 4 trazem os primeiros perigos: a armadilha de um caçador e uma peste destruidora. Logo em seguida, a imagem muda, e Deus protege como uma ave que cobre os filhotes com as asas.
De um lado, está aquilo que captura e destrói; do outro, algo vulnerável sendo recolhido e protegido. Depois, surge uma imagem militar: a fidelidade de Deus é comparada a um escudo. Dessa forma, o salmo alterna imagens diferentes (abrigo, ave, fortaleza e escudo) para falar da mesma ideia.

Versículos 5 e 6: o medo da noite e os perigos do dia
Os versículos 5 e 6 falam do terror noturno, da flecha que voa de dia, da peste que anda na escuridão e da destruição ao meio-dia. Ou seja, o texto percorre praticamente o dia inteiro, o que sugere abrangência: há perigos visíveis e invisíveis, previsíveis e inesperados.
Para um leitor antigo, peste, guerra e violência não eram conceitos distantes. Faziam parte das ameaças concretas da vida.
Versículos 7 e 8: “mil cairão ao teu lado”
A imagem dos versículos 7 e 8 é extrema: mesmo quando a destruição atinge milhares ao redor, quem encontra refúgio em Deus permanece sob sua proteção.
Como os Salmos são poesia, essa linguagem deve ser lida como tal. A poesia hebraica usa paralelismos, imagens e intensificações. Nesse caso, a passagem de mil para dez mil reforça a dimensão da ameaça e, ao mesmo tempo, a força da confiança do salmista.
Versículos 9 e 10: fazer de Deus a própria morada
Nos versículos 9 e 10, o salmo retoma a imagem com que começou. Deus não aparece apenas como alguém a quem se pede ajuda numa emergência, mas como morada.
O Salmo 90, imediatamente anterior, também apresenta Deus como lugar de habitação ao longo das gerações. Essa proximidade é uma das razões pelas quais os estudiosos leem os Salmos 90 e 91 em conjunto. Em outras palavras, o salmo não fala só em correr para um abrigo quando a tempestade começa, e sim em habitar nele.
Versículos 11 e 12: “aos seus anjos dará ordem a teu respeito”
Nos versículos 11 e 12, Deus ordena aos seus anjos que guardem a pessoa em seus caminhos. Os anjos aparecem, portanto, como agentes da proteção divina.
Essa passagem também aparece no Novo Testamento, nos relatos da tentação de Jesus no deserto (Mateus 4:6 e Lucas 4:10–11). Ali, é o diabo quem cita o salmo para desafiar Jesus a se lançar do alto do Templo, com base na promessa de proteção dos anjos. A resposta de Jesus deixa clara uma distinção: o salmo fala de confiança diante dos perigos da vida, e não de provocar situações perigosas para testar se Deus vai intervir.
Versículo 13: leão e serpente
No versículo 13, a pessoa protegida por Deus é descrita pisando sobre o leão e a serpente, animais que representam ameaças enfrentadas e vencidas.
Esse versículo, porém, ganhou leituras muito além de seu contexto original. Na tradição cristã antiga, por exemplo, a serpente foi relacionada ao mal e à vitória sobre forças demoníacas. O texto do salmo apresenta imagens de vitória sobre perigos; as tradições posteriores desenvolveram outras leituras a partir delas.
Versículos 14 a 16: agora Deus fala
Nos versículos 14 a 16, a voz do salmo muda. Até ali, o leitor ouvia declarações sobre Deus; a partir desse ponto, é o próprio Deus quem responde.
A sequência reúne várias ações divinas: livrar, proteger, responder, acompanhar na angústia, resgatar, honrar e mostrar a salvação. Entre elas está a frase “estarei com ele na angústia” (Salmo 91:15). Ou seja, o texto não diz que quem confia em Deus jamais conhecerá a angústia. Pelo contrário, a promessa admite que ela pode existir e afirma a presença de Deus dentro dela.
O Salmo 91 promete que nada de ruim acontecerá?
Lidas isoladamente, algumas frases podem levar a essa conclusão. O conjunto, no entanto, é mais complexo.
O próprio salmo fala de armadilhas, pestes, medo, guerra, destruição e angústia. Portanto, ele não descreve um mundo sem sofrimento. O que apresenta é uma declaração de confiança na proteção de Deus dentro de um mundo perigoso, em que o perigo existe, mas não é maior do que a presença divina.
Por que o Salmo 91 ficou conhecido como um salmo de proteção?
A relação do Salmo 91 com a proteção é muito antiga. Entre os Manuscritos do Mar Morto, encontrados na região de Qumran, existe um manuscrito conhecido como 11Q11, ou 11Q Apocryphal Psalms. O arquivo digital da Autoridade de Antiguidades de Israel preserva imagens de seus fragmentos.

Segundo um estudo publicado no Oxford Handbook of the Psalms, o 11Q11 foi copiado aproximadamente entre 50 e 68 d.C. e reúne salmos usados contra forças demoníacas. O quarto deles é justamente o Salmo 91. Além disso, o estudo observa a forte associação posterior do salmo com a proteção contra essas forças nas tradições judaica e cristã.
Assim, há cerca de dois mil anos o Salmo 91 já era usado em contextos de proteção espiritual. Essa relação continuou ao longo dos séculos, como mostra Brennan Breed em seu estudo sobre a história da recepção do salmo. Portanto, chamá-lo de “salmo de proteção” tem fundamento tanto no conteúdo do texto quanto em sua longa história de uso.
Como orar o Salmo 91?
Uma maneira simples é ler o salmo devagar, prestando atenção às imagens. Em vez de tentar terminar rapidamente os 16 versículos, observe quais palavras encontram o momento que você está vivendo.
Quem está com medo pode se deter nos versos sobre a noite; quem vive um momento de insegurança, na imagem do refúgio. Já quem atravessa uma situação difícil pode dar atenção especial aos últimos versos, que falam de presença durante a angústia, e não apenas de livramento. Afinal, o próprio Salmo 91 já oferece palavras suficientes para a oração, sem precisar ser transformado em fórmula.
Se preferir orar ouvindo, o canal A Palavra com Joyce Bueno tem uma playlist dedicada ao Salmo 91:
Entre o Verbo e o Véu
Eu tenho uma relação muito pessoal com esse salmo. Durante muito tempo, usei versões impressas do Salmo 91 em casa e no carro. Para mim, ele sempre funcionou como um escudo e, principalmente, como uma lembrança de quem me guarda.
Hoje, somos estimulados a viver com medo: do que pode acontecer, do que podemos perder, da doença, da violência, do futuro. O Salmo 91 não esconde esses perigos, mas não deixa que o medo ocupe o lugar principal do texto. Esse lugar é da proteção de Deus.
Quando nos sentimos desconectados de Deus, o perigo pode parecer maior do que tudo. Por outro lado, quando nos reconectamos com Ele como nosso Criador, o perigo pode continuar existindo, mas já não estamos sozinhos diante dele.
Talvez seja por isso que continuo voltando a esse salmo. Ele me lembra que há um lugar de refúgio, que há uma presença comigo na angústia e que, como diz o Salmo 121, quem me guarda não dorme.
“Estarei com ele na angústia.”
Salmo 91:15
— Joyce Bueno
Perguntas frequentes sobre o Salmo 91
Ver as perguntas
Para que serve o Salmo 91?
O Salmo 91 é tradicionalmente usado como oração de proteção, confiança e entrega a Deus. Seu próprio texto fala de refúgio diante de perigos, e sua associação com proteção também aparece em tradições muito antigas.
Existe uma hora certa para orar o Salmo 91?
O Salmo 91 não determina um horário específico para sua leitura ou oração. Ele pode ser lido quando a pessoa sentir necessidade de proteção, confiança, fortalecimento ou simplesmente quiser se reconectar com Deus.
Qual é a diferença entre o Salmo 90 e o Salmo 91?
O Salmo 90 possui uma indicação explícita relacionada a Moisés e fala, entre outros temas, da eternidade de Deus diante da brevidade da vida humana. O Salmo 91 não identifica seu autor e concentra sua linguagem na confiança, no refúgio e na proteção divina. Os dois possuem pontos de contato e são estudados também em conjunto. Repositório UP
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Fontes e referências
Ver a lista completa de fontes
- Sefaria — Salmo 91 em hebraico e traduções — para consulta do texto hebraico e comparação de traduções.
- Sefaria — Rashi sobre o Salmo 90 e Rashi sobre o Salmo 91 — para a tradição de atribuição a Moisés e o comentário sobre as “asas da Shechiná”.
- Phil J. Botha — “Psalm 91 and its Wisdom Connections”, Old Testament Essays, 25(2), 2012, pp. 260–276 — para as relações literárias do Salmo 91 e sua posição entre os Salmos 90 e 92.
- Oxford Handbook of the Psalms — “Apocryphal Psalms in the Psalms Scrolls and in Texts Incorporating Psalms” — para 11Q11, sua datação e o contexto de proteção contra forças demoníacas.
- Dead Sea Scrolls Digital Library — 11Q11 — arquivo oficial da Autoridade de Antiguidades de Israel com imagens do manuscrito.
- Brennan Breed — “Reception of the Psalms: The Example of Psalm 91”, The Oxford Handbook of the Psalms — para a história da recepção e dos usos protetivos do Salmo 91.
- Bíblia Almeida — Salmo 91, revisão de 1911 — texto em domínio público utilizado para a reprodução integral do salmo neste artigo.





