O que é o Sefer Yetzirah? O Livro da Formação e os mistérios da criação

Entenda o que é o Sefer Yetzirah, o Livro da Formação: as dez sefirot, as 22 letras hebraicas, as 231 portas e a ligação com o golem.

Por Joyce Bueno

Mãos de um oleiro dando forma ao barro à luz de uma lamparina, imagem do Sefer Yetzirah, o Livro da Formação

O Sefer Yetzirah, conhecido em português como Livro da Formação, é um dos textos mais antigos da tradição mística judaica. Em vez de contar a criação como uma história, como faz o Gênesis, ele a descreve como uma estrutura feita de números e de letras hebraicas.

O livro é curto: tem seis capítulos e cabe em poucas páginas. Mesmo assim, foi comentado por gerações de sábios e se tornou uma das bases da Cabala medieval. Por isso, quem começa a estudar Cabala acaba, mais cedo ou mais tarde, chegando a ele.

O que significa Sefer Yetzirah?

Em hebraico, sefer (ספר) significa “livro”, e yetzirah (יצירה) significa “formação”, o ato de dar forma a alguma coisa. Por isso, a tradução mais conhecida é Livro da Formação. Também se encontra o título Livro da Criação, mas “formação” é mais fiel ao hebraico.

Isso acontece porque a Bíblia usa verbos diferentes para criar e formar. O verbo bara costuma indicar o ato de criar. Já yatzar indica dar forma a algo, como em Gênesis 2:7: “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra”. O título do livro usa essa segunda raiz, o que combina com seu conteúdo: o Sefer Yetzirah quer mostrar como a criação ganha forma e estrutura.

A primeira frase do livro

O Sefer Yetzirah abre afirmando que Deus gravou o mundo “com trinta e dois caminhos maravilhosos de sabedoria”. Logo em seguida, diz que criou o mundo com três sefarim: sefer, sefar e sippur.

As três palavras vêm da mesma raiz hebraica e significam, respectivamente, texto, número e narração. Ou seja, já na primeira linha o livro anuncia seu método: a criação pode ser lida como se lê um texto, contada como se contam números e narrada como se narra uma história.

Os 32 caminhos, por sua vez, são formados por dois conjuntos:

  • 10 sefirot, ligadas a números e às dimensões do espaço;
  • 22 letras do alfabeto hebraico, que dão forma e diferenciam as coisas.

Dez mais vinte e dois: trinta e dois caminhos.

As dez sefirot no Sefer Yetzirah

Quem já conhece a Árvore da Vida conhece nomes como Keter, Chokhmah, Binah, Chesed e Gevurah. Esses nomes, porém, pertencem à Cabala medieval, que surgiu séculos depois. No Sefer Yetzirah, a palavra sefirot ainda aparece ligada à ideia de número, e as dez sefirot descrevem a estrutura do universo, e não as qualidades de Deus.

O livro as chama de eser sefirot belimah, expressão de tradução difícil. Há duas leituras clássicas para belimah. A primeira entende beli-mah, “sem o quê”, ou seja, sem substância. A segunda liga a palavra a belom, “fechar”. O próprio texto brinca com isso, porque pede ao leitor belom pikha, “fecha a tua boca”, diante desses mistérios.

O livro também insiste que as sefirot são “dez, e não nove; dez, e não onze”. A repetição deixa claro que o número não é um detalhe: é parte do ensinamento.

Os quatro princípios e as seis direções

Na descrição mais conhecida, as dez sefirot são:

  1. O espírito do Deus vivo.
  2. O ar, que procede do espírito.
  3. A água, que procede do ar.
  4. O fogo, que procede da água.
  5. O alto.
  6. O baixo.
  7. O leste.
  8. O oeste.
  9. O sul.
  10. O norte.

As quatro primeiras descrevem uma sequência de formação, do espírito aos elementos. Já as seis últimas são as direções do espaço. A ordem do sul e do norte varia em algumas versões.

Os selos do Nome

O livro acrescenta um detalhe que liga as sefirot às letras. Segundo o texto, Deus “selou” cada uma das seis direções com uma combinação diferente de três letras: Yod, He e Vav, que fazem parte do Nome divino.

Aqui há uma matemática simples e bonita. Três letras podem ser organizadas de exatamente seis maneiras diferentes. Assim, as seis combinações possíveis de Yod, He e Vav correspondem às seis direções do espaço. É nesse ponto que as duas metades dos 32 caminhos, as sefirot e as letras, se encontram.

As 22 letras hebraicas e a criação

No Sefer Yetzirah, as letras não são apenas sinais para escrever palavras. Elas são o material com que o mundo é formado. Por isso, o texto fala em gravar, talhar, pesar e combinar as letras, como se fossem pedras de uma construção.

O livro divide as 22 letras em três grupos: três letras-mães, sete letras duplas e doze letras simples. Cada grupo corresponde a uma parte do mundo, do tempo e do corpo humano.

As três letras-mães: Alef, Mem e Shin

As letras-mães são Alef (א), Mem (מ) e Shin (ש). Cada uma corresponde a um elemento:

LetraElemento
Alef (א)Ar
Mem (מ)Água
Shin (ש)Fogo

A escolha tem a ver com o próprio som das letras. O Mem é uma letra fechada, quase muda, como a água parada. O Shin sibila, como o fogo. Já o Alef, que mal tem som próprio, fica entre os dois, como o ar que separa a água do fogo.

O livro aplica essa tríade a três níveis. No mundo, o fogo corresponde ao céu, a água à terra e o ar ao espaço entre os dois. Já no ano, o fogo é o calor, a água é o frio e o ar é o clima temperado. No corpo, por fim, o fogo está na cabeça, a água no ventre e o ar no peito.

As sete letras duplas

O segundo grupo reúne sete letras: Bet (ב), Gimel (ג), Dalet (ד), Kaf (כ), Pe (פ), Resh (ר) e Tav (ת). Elas são chamadas de duplas porque tinham duas pronúncias, uma mais forte e outra mais suave. No hebraico que conhecemos hoje, essa diferença se perdeu no Resh, e por isso o tema ainda é discutido.

Cada letra dupla corresponde a um dos sete astros que a astronomia antiga observava em movimento no céu (entre eles, o Sol e a Lua), a um dos sete dias da semana e a uma das sete “portas” do rosto: os dois olhos, os dois ouvidos, as duas narinas e a boca.

Além disso, cada uma carrega um par de opostos: vida e morte, paz e guerra, sabedoria e tolice, riqueza e pobreza, graça e feiura, fertilidade e desolação, domínio e servidão. Em outras palavras, as letras duplas representam aquilo que, na vida, pode pender para um lado ou para o outro. A ordem dessas associações muda de uma versão do livro para outra.

As doze letras simples

As doze letras restantes são He (ה), Vav (ו), Zayin (ז), Chet (ח), Tet (ט), Yod (י), Lamed (ל), Nun (נ), Samekh (ס), Ayin (ע), Tsadi (צ) e Qof (ק).

Elas correspondem aos doze signos do zodíaco, aos doze meses do ano e a doze funções humanas, como falar, pensar, andar, ver, ouvir, cheirar, comer, dormir, rir e sentir raiva. Ou seja, se as letras duplas falam dos opostos da vida, as simples falam das atividades de todos os dias.

Para entender essas associações, vale lembrar que o livro foi escrito num ambiente em que astronomia, calendário e medicina ainda não estavam separados da leitura simbólica da natureza.

Como as letras formam o mundo?

Uma das ideias centrais do Sefer Yetzirah é a combinação das letras. Pense numa língua: com um número limitado de letras, formamos milhares de palavras, e basta trocar uma letra de lugar para mudar o sentido. O livro aplica essa lógica à própria criação.

Pedras e casas

Para explicar isso, o Sefer Yetzirah usa uma imagem concreta. As letras são “pedras”, e as palavras que se formam com elas são “casas”. Então o texto faz a conta:

  • duas pedras constroem duas casas;
  • três pedras constroem seis casas;
  • quatro pedras constroem 24 casas;
  • cinco pedras constroem 120 casas;
  • seis pedras constroem 720 casas;
  • sete pedras constroem 5.040 casas.

Depois disso, diz o livro, o número cresce além do que a boca consegue dizer e o ouvido consegue ouvir. Na prática, é o cálculo das permutações, isto é, de quantas ordens diferentes um grupo de letras pode ter. A matemática moderna faz essa mesma conta, e o Sefer Yetzirah já a usava para mostrar como poucos elementos produzem uma variedade quase infinita.

Pedras soltas e pequenas casas de pedra em fila sobre uma mesa antiga, ilustrando as pedras e casas do Sefer Yetzirah

As 231 portas

O livro também fala em 231 “portas”. O número corresponde a todos os pares possíveis entre as 22 letras, sem repetir nenhum par. Por exemplo, Alef com Bet, Alef com Gimel, e assim por diante, até esgotar as combinações. Algumas versões e manuscritos trazem o número 221 em vez de 231, uma diferença que os comentaristas discutem há séculos.

Assim, para o Sefer Yetzirah, as letras não servem apenas para dar nome a coisas que já existem. São as próprias combinações das letras que dão forma às coisas.

O mundo, o ano e a alma

Ao longo do livro, cada grupo de letras é aplicado a três níveis, que o texto chama de olam (mundo), shanah (ano) e nefesh (alma, ou ser vivo):

  • o mundo é a estrutura do universo: céu, terra, astros e direções;
  • o ano é o tempo: os dias, os meses e as estações;
  • a alma é o ser humano: o corpo e suas funções.

Dessa forma, as listas de elementos, astros, meses e partes do corpo não são informações soltas. Pelo contrário, mostram a mesma estrutura se repetindo no espaço, no tempo e no ser humano. Para o Sefer Yetzirah, as letras que formam o céu são as mesmas que formam o corpo.

Quem escreveu o Sefer Yetzirah?

A tradição judaica atribui o Sefer Yetzirah a Abraão. Essa associação aparece no final do próprio livro, que descreve Abraão contemplando e compreendendo esses mistérios, e foi reforçada por tradições posteriores.

Historicamente, porém, não é possível atribuir o texto ao patriarca bíblico. A data de composição é discutida: a maioria das propostas fica entre os séculos II e VI da era cristã, e alguns pesquisadores defendem datas ainda mais tardias.

As versões do livro

O Sefer Yetzirah chegou até nós em versões diferentes, com variações de extensão, de ordem e de conteúdo. As principais são:

  • a versão curta e a versão longa, que diferem sobretudo no tamanho;
  • a versão de Saadia Gaon, sábio judeu do século X que escreveu um dos primeiros comentários ao livro;
  • a versão do Gaon de Vilna, sábio do século XVIII, que serve de base à maioria das edições impressas hoje.

Por isso, algumas passagens mudam de lugar ou de redação conforme a edição. Saber qual versão se está lendo é o primeiro passo para estudar o livro com seriedade.

O Sefer Yetzirah e o golem

A associação mais famosa do Sefer Yetzirah é com o golem, a figura de barro que, segundo a lenda, ganha vida por meio das letras sagradas.

Figura humana de barro inacabada sobre uma mesa de madeira, à luz de uma vela, representando o golem
Imagem ilustrativa.

A origem dessa ideia está no Talmude. No tratado Sanhedrin 65b, conta-se que dois sábios, Rav Chanina e Rav Oshaya, estudavam as “leis da formação” toda véspera de Shabat e, com elas, criavam um bezerro, que depois comiam. Na mesma página, o Talmude conta que o sábio Rava criou um homem e o enviou a outro rabino. Como o homem não respondia quando lhe falavam, o rabino percebeu que ele tinha sido criado por magia e o mandou de volta ao pó.

Não se sabe se as “leis da formação” citadas no Talmude são o mesmo livro que temos hoje. Ainda assim, na Idade Média, comentaristas como Eleazar de Worms, que viveu entre os séculos XII e XIII, associaram o Sefer Yetzirah a práticas de criação do golem. A versão mais conhecida da lenda se passa na Praga do século XVI e envolve o rabino Judah Loew, o Maharal, embora só tenha sido registrada por escrito bem mais tarde.

O Sefer Yetzirah é um livro de Cabala?

O Sefer Yetzirah é anterior à Cabala medieval, que tomou forma na Provença e na Espanha a partir do século XII. Por isso, é mais preciso apresentá-lo como um texto antigo da mística judaica sobre a criação, que depois se tornou fundamental para os cabalistas.

A Cabala desenvolveu conceitos próprios e uma nova compreensão das sefirot. Ao mesmo tempo, herdou do Sefer Yetzirah o interesse pelas letras hebraicas, pelas combinações e pela ideia de que a linguagem participa da criação.

Por que o Sefer Yetzirah continua sendo estudado?

O livro reúne, em poucas páginas, perguntas sobre a criação, a linguagem e os números. Além disso, propõe uma ideia que continua instigante: poucas peças simples, combinadas de muitas maneiras, podem formar tudo o que existe.

Para quem começa a estudar Cabala, ele mostra uma etapa anterior à Árvore da Vida. Já para quem quer ler os textos antigos diretamente, é uma das obras que mais influenciaram o pensamento místico judaico.

Onde ler o Sefer Yetzirah completo?

O texto completo pode ser lido no Sefaria, em hebraico e inglês, com indicação da versão.

Aqui no Entre o Verbo e o Véu, vamos disponibilizar uma tradução em português com explicações, identificando a versão hebraica usada como base. Assim, você poderá ler o texto completo e consultar separadamente a explicação de cada conceito.

Perguntas frequentes

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O que significa Sefer Yetzirah?

Significa “Livro da Formação”. É um antigo texto místico judaico que descreve a criação por meio de dez sefirot e das 22 letras do alfabeto hebraico.

O Sefer Yetzirah foi escrito por Abraão?

A tradição atribui o livro a Abraão. Historicamente, porém, ele foi composto muitos séculos depois, provavelmente entre os séculos II e VI da era cristã.

Quantas letras aparecem no Sefer Yetzirah?

As 22 letras do alfabeto hebraico, divididas em três letras-mães (Alef, Mem e Shin), sete letras duplas e doze letras simples.

O Sefer Yetzirah fala da Árvore da Vida?

Não diretamente. O livro apresenta dez sefirot, mas elas descrevem a estrutura do universo, e não as qualidades divinas da Árvore da Vida, que surgiu na Cabala medieval.

O Sefer Yetzirah ensina a criar um golem?

O livro não fala em golem. A associação vem do Talmude, que conta histórias de sábios que criavam seres por meio das “leis da formação”, e de comentaristas medievais que ligaram essas histórias ao Sefer Yetzirah.

O Sefer Yetzirah é a mesma coisa que o Zohar?

Não. O Sefer Yetzirah é mais antigo e trata de letras, números e da formação do mundo. O Zohar é uma coleção de interpretações místicas da Torá que surgiu na Espanha no final do século XIII.

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Joyce Bueno

Escrito por

Joyce Bueno

Pesquisadora de textos sagrados, símbolos e tradições. Conduz meditações e atendimentos para quem busca uma vida interior mais profunda.

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