Na Bíblia Hebraica, um dos nomes de Deus é escrito com quatro letras: יהוה (Yod, He, Vav, He), transliteradas como YHWH. Por isso, esse nome ficou conhecido como Tetragrama, palavra de origem grega que significa “quatro letras”.
Na leitura judaica da Torá, porém, essas letras não são pronunciadas como estão escritas. Durante a oração e a leitura das Escrituras, o leitor diz Adonai. Já em conversas e aulas, é comum dizer HaShem, “o Nome”. Neste artigo, “Nome”, com maiúscula, se refere sempre ao Tetragrama.
Onde aparece YHWH na Bíblia?
O Tetragrama aparece milhares de vezes na Bíblia Hebraica. Uma das passagens mais importantes está em Êxodo 3, no episódio da sarça ardente.
Quando Moisés pergunta o nome de quem o envia, recebe primeiro a resposta Ehyeh Asher Ehyeh. Logo depois, em Êxodo 3:15, o texto apresenta YHWH como o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó. Além disso, declara que esse é o Seu nome para sempre, de geração em geração.
Por que YHWH não é pronunciado como está escrito?
A tradição judaica distingue entre escrever o Nome e pronunciá-lo. Essa distinção aparece no Talmude Babilônico, no tratado Pesachim 50a. Ao comentar Êxodo 3:15, os sábios ensinam que o Nome se escreve com as letras do Tetragrama, mas se lê Adonai.
Rashi, em seu comentário ao mesmo versículo, segue essa tradição. Ele observa que a palavra le’olam, “para sempre”, está escrita sem a letra vav (לעלם). Dessa forma, ela também pode ser lida como le’alem, “ocultar”. O ensinamento, portanto, é que o Nome deve permanecer oculto na pronúncia.
Ou seja, a prática não nasceu porque as pessoas esqueceram como ler as quatro letras. Pelo contrário, a própria tradição preservou deliberadamente uma leitura diferente.
Quando o Nome era pronunciado?

No período do Segundo Templo, a pronúncia do Nome ficou reservada a contextos específicos do culto no Templo de Jerusalém. A Mishná (Sotah 7:6) registra que, no Templo, os sacerdotes diziam a bênção sacerdotal com o Nome como estava escrito. Fora do Templo, no entanto, já se usava uma forma substituta.
O caso mais conhecido acontecia no Yom Kippur, o Dia da Expiação. Durante o serviço, o Sumo Sacerdote pronunciava o Nome em momentos determinados da liturgia. A tradição chama essa forma de Shem HaMeforash, “o Nome explícito”. Segundo a Mishná (Yoma 6:2), o povo que o ouvia se prostrava e respondia com uma fórmula de louvor.
Com a destruição do Segundo Templo, no ano 70, desapareceu o contexto ritual em que as fontes rabínicas ainda registram a pronúncia do Nome. A partir de então, a leitura substituta passou a valer em todas as situações.
Ainda se sabe como YHWH era pronunciado?
Não com certeza. Como a tradição judaica deixou de usar a pronúncia, não existe uma transmissão contínua que permita recuperá-la com segurança.
A forma Yahweh, escrita “Javé” em português, é uma reconstrução acadêmica amplamente aceita. Ela se apoia em vários indícios, como a forma curta Yah, presente em Halleluyah, e os nomes próprios terminados em -yahu, como Yeshayahu (Isaías). Além disso, alguns autores cristãos antigos registraram transcrições gregas do nome.
Ainda assim, reconstruir uma provável pronúncia é diferente de usá-la religiosamente. Na prática judaica, o Tetragrama continua sem ser pronunciado.
O que significam Adonai e HaShem?
Adonai (אֲדֹנָי) é a palavra lida quando YHWH aparece na leitura bíblica ou na oração. Ela deriva de adon, “senhor”. Por isso, muitas Bíblias traduzem o Tetragrama como “SENHOR”, em letras maiúsculas.
As maiúsculas indicam ao leitor que, no hebraico, está escrito YHWH. Assim, em “O SENHOR é o meu pastor” (Salmo 23:1), o texto original traz o Tetragrama. A maioria das Bíblias em português segue essa convenção. Algumas traduções católicas, no entanto, usam “Javé” ou “Iahweh”, e a Tradução Brasileira usa “Jeová”.
HaShem (השם), por sua vez, significa “o Nome”. É a forma usada fora da oração, em conversas, aulas e estudos. Por exemplo, alguém que explica um versículo pode dizer “HaShem disse a Moisés”, em vez de pronunciar Adonai fora do contexto litúrgico.
De onde veio a palavra “Jeová”?
Os antigos manuscritos hebraicos não utilizavam o sistema de sinais vocálicos que encontramos nas edições atuais da Bíblia Hebraica. Entre aproximadamente os séculos VII e X, os massoretas desenvolveram e preservaram sistemas de vocalização para registrar a tradição de leitura.
Em hebraico, existe uma distinção entre o que está escrito, chamado ketiv, e o que deve ser lido, chamado qere. Quando os dois divergem, os sinais vocálicos da palavra lida são colocados nas consoantes da palavra escrita. O Tetragrama é o caso mais importante dessa regra. Por isso, os estudiosos o chamam de qere perpetuum, uma leitura substituta permanente.
Na prática, os massoretas colocaram nas letras de YHWH sinais que lembram as vogais de Adonai. Esses sinais funcionavam como um aviso ao leitor, e não como registro da pronúncia original. Além disso, quando Adonai aparece junto de YHWH, a leitura tradicional do Tetragrama é Elohim, evitando a repetição “Adonai Adonai”. A vocalização massorética também sinaliza essa leitura.
Mais tarde, alguns estudiosos cristãos passaram a ler as consoantes do Tetragrama juntamente com esses sinais vocálicos. Dessa combinação surgiu a forma latinizada Iehova, difundida na Europa a partir do século XVI, da qual veio “Jeová”.
Portanto, “Jeová” não representa a pronúncia antiga do Tetragrama. “Javé”, por outro lado, é uma tentativa acadêmica de reconstruí-la. As duas formas têm origens diferentes e, de todo modo, nenhuma substitui a leitura tradicional Adonai na prática judaica.
O mandamento de não tomar o nome de Deus em vão tem relação com isso?

Na contagem judaica e na da maioria das igrejas protestantes, esse é o terceiro dos Dez Mandamentos; na católica, é o segundo. Ele certamente contribuiu para a reverência judaica pelos nomes divinos. No entanto, reduzir toda a prática a esse mandamento seria simplificar uma tradição que se desenvolveu ao longo de séculos, com fontes rabínicas próprias sobre o Nome escrito e o Nome lido.
Essa reverência, aliás, vai além da pronúncia. Na tradição judaica, textos que contêm nomes divinos não são descartados como papel comum. Quando deixam de ser usados, são guardados em uma guenizá ou enterrados, conforme regras próprias.
YHWH significa “Eu Sou”?
A pergunta é comum, porque YHWH aparece logo depois de Ehyeh Asher Ehyeh. De fato, muitos estudiosos relacionam as duas formas ao verbo hebraico hayah, ligado a ser, estar e existir.
Contudo, dizer que “YHWH significa Eu Sou” apaga uma diferença importante. Ehyeh está na primeira pessoa: “eu sou”, “eu serei”, “eu estarei”. YHWH, por sua vez, tem outra formação, e sua origem exata ainda é discutida. Entre as propostas estão sentidos como “Ele é”, “Ele será” ou “Ele faz existir”.
Por isso, é mais correto dizer que Ehyeh e YHWH estão relacionados do que tratá-los como palavras idênticas. Em resumo, o Nome continua escrito milhares de vezes na Bíblia Hebraica, sem ter sido apagado ou substituído. O que a tradição judaica preservou foi uma disciplina sobre a maneira de lê-lo.
Perguntas frequentes
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O que significa YHWH?
É o Tetragrama, o nome divino escrito com as letras hebraicas Yod, He, Vav e He (יהוה). Muitos estudiosos o relacionam ao verbo hayah, ligado a ser e existir, mas seu sentido exato ainda é discutido.
Por que os judeus dizem Adonai em vez de YHWH?
Porque a tradição judaica determina que o Tetragrama não seja pronunciado como está escrito. Assim, na oração e na leitura das Escrituras, lê-se Adonai.
Qual é a diferença entre Adonai e HaShem?
Adonai é usado na oração e na leitura litúrgica. HaShem, “o Nome”, é usado em conversas, aulas e estudos.
Jeová é a pronúncia original de YHWH?
Não. “Jeová” surgiu da combinação das consoantes do Tetragrama com sinais vocálicos que indicavam a leitura de Adonai.
Javé é a pronúncia correta?
“Javé” (Yahweh) é a reconstrução acadêmica mais aceita da provável pronúncia antiga. Ainda assim, não há como confirmá-la com certeza.
YHWH ainda aparece na Torá em hebraico?
Sim. O Tetragrama continua escrito normalmente no texto hebraico. O que muda é apenas a forma de pronunciá-lo.
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Fontes
Ver a lista completa de fontes
- Êxodo 3:15 (Sefaria)
- Talmude Babilônico, Pesachim 50a (Sefaria)
- Rashi sobre Êxodo 3:15 (Sefaria)
- Mishná, Sotah 7:6 (Sefaria)
- Mishná, Yoma 6:2 (Sefaria)
- My Jewish Learning, “The Tetragrammaton”
- Jewish Encyclopedia, verbetes “Jehovah” e “Shem ha-Meforash”




